Sobreviver ao trauma ou crescer com o trauma?

O ser humano está em constante mutação e crescimento, desenvolvendo-se à medida que o tempo passa e as experiências de vida se acumulam. O que cada um de nós é hoje é o reflexo da interação entre um vasto conjunto de elementos ao longo da nossa história. Começando pelos genes e os fatores de natureza biológica, assim como os fatores contextuais, como a educação e experiências passadas, sejam elas positivas ou negativas. 

Todos nós estamos integrados numa história de vida que iniciou no dia em que nascemos até ao presente momento marcada por momentos mais felizes e outros mais negativos e até traumáticos (doenças graves, violência física ou sexual, acidentes, atos de terrorismo, catástrofes naturais…). E como é natural, a vivência de uma experiência traumática e stressante, provoca um grande impacto nessa mesma história.

Tal como quando um jarro é partido, todos os pedaços poderão ser colados, contudo, as marcas da quebra, as suas cicatrizes, perduram, não podem ser eliminadas. Fazendo parte da história desse mesmo objeto. Tal como uma perda ou um trauma fará da nossa enquanto seres humanos.

O estudo do impacto do trauma no ser humano não é recente, tendo obtido maior destaque depois da segunda guerra mundial, altura em que muitos sobreviventes de guerra desenvolveram a conhecido “Perturbação de Stress Pós-Traumático” (PSPT). O que a teoria e os livros de psicodiagnóstico nos dizem é que após uma experiência traumática, em que a segurança do sujeito é posta em causa, este, desenvolverá uma série de sintomas psicológicos adversos, no seguimento do forte impacto dessa experiência.

Alguns desses sintomas são: Insónias, Mal-estar psicológico e emocional, Pensamentos intrusivos e recorrentes, Medo, Reações dissociativas (separar-me do meu próprio corpo), Isolamento.

Contudo, se todas as pessoas que vivenciam uma situação de stress extremo e traumático desenvolvessem essas mesmas dificuldades associadas à PSPT, estaríamos perante um problema talvez incontrolável, uma vez que a grande maioria de nós é exposta a uma situação traumática pelo menos uma vez na vida.

O que se observa, é que em algumas pessoas, surge a ocorrência de sintomas pós-trauma como stress marcado ou outras implicações no funcionamento e relações. Contudo, a maioria das pessoas, perante um evento traumático, recupera depressa os seus níveis de funcionamento e em muitos casos, até melhoram e crescem.

Até certo ponto, o foco da investigação estava nas consequências negativas do trauma, no patológico e disfuncional. No entanto, ao contrário do que seria de esperar, o trauma pode ter um impacto benéfico no curso da vida de algumas pessoas. Sendo chamado de “Crescimento pós-trauma”

Porque é que isto acontece a apenas algumas pessoas?

Em primeiro lugar, cada pessoa tem a sua forma de lidar com os eventos stressantes da vida, o que faz com que sejam afetadas de forma diferente perante uma mesma experiência traumática.

No entanto, a investigação, embora relativamente recente, mostra que existem alguns fatores que têm impacto na forma como a pessoa reage nestas situações, entre eles, o funcionamento peri-trauma (anterior ao trauma), ou seja, as fragilidades/forças já existentes e o tipo de trauma, podendo ser pontual (e.g.:um acidente) ou recorrente (e.g.: violência doméstica).

A área da Psicologia que tem estudado este fenómeno é a Psicologia Positiva. E as suas teorias mais atuais focam-se nos aspetos positivos da reação ao trauma, considerando o individuo ativo e forte, com uma grande flexibilidade e capacidade de se adaptar perante o trauma. Encontrando sentido nas experiências mais negativas.

Existem três termos relacionados com a pessoa que se destacam: Resistência, Resiliência e Recuperação.

  1. Resistência: Capacidade de resistir à pressão e stress provocado pela situação traumática sem grandes custos psicológicos. Diz respeito à capacidade de se proteger perante a adversidade, associada à rigidez.
  2. Resiliência: Diz respeito à capacidade do individuo restabelecer o equilíbrio de forma mais eficiente que os demais após este ter sido posto em causa, muito associado à capacidade de adaptação e reorganização perante as dificuldades.
  3. Recuperação: Envolve uma mudança no seu funcionamento pós-trauma, seguido de um período de recuperação e equilíbrio. 

Portanto, a vivência de uma experiência traumática, não significa um desfecho patológico, mesmo que inicialmente existam alguns sintomas associados ao impacto ou choque. Não só é possível “escapar ileso”, como crescer psicológica, emocional e espiritualmente, tornando-se uma melhor versão de si. Aproveitando as oportunidades e valorizando cada vez mais a vida.

Nós, seres humanos, desvalorizamos a nossa capacidade de lutar contra os momentos difíceis da vida. Acreditamos muitas vezes que não somos capazes de aguentar certos desafios, somente porque não aprendemos a utilizar estratégias eficazes nessa luta.

O primeiro passo é abraçar a dor e as cicatrizes, para depois CRESCER.