Stalking: a história de terror após o amor.

“Não estava feliz. Terminei tudo com ele e decidi seguir com a minha vida. Ele respondeu-me: “não podes acabar comigo, não aceito.” E aí começaram os verdadeiros problemas. Começaram as chamadas e mensagens a implorar para voltarmos a tentar. Começaram os presentes e as flores. Depois os meus amigos e família começaram também a receber chamadas e mensagens. “Ele gosta mesmo de ti, coitadinho”, diziam. Começou a aparecer em todos os sítios onde eu ía e aí comecei a ter medo. Este final foi o princípio de uma nova história, não de amor, mas de terror.”– T.

O Stalking é o termo utilizado para definir este tipo de comportamentos. A sua tradução seria “perseguição”, no entanto, o termo é usado na sua forma original. Ele diz respeito a uma forma de violência relacional através de um conjunto de comportamentos de assédio de carácter persistente. Podemos vê-lo nas suas diferentes facetas: comunicação, contactos, vigilância e monitorização de uma pessoa.

O reconhecimento do stalking enquanto ato violento surgiu no final do século XX nos Estados Unidos da América em resposta aos crimes ocorridos com várias celebridades nesta época. Em Portugal, é considerado crime após uma alteração ao código penal (lei 83/2015), punido com pena de prisão até 3 anos.

Como podemos então descrever-lo?

A definição do termo Stalking não é clara, no entanto, existem pontos comuns entre as diferentes definições: 

– Padrão de comportamento intrusivo e abusivo;

– Intenção de ameaça manifestada de forma explícita ou implícita;

– Sentimento de medo por parte da vítima. 

Os dois motivos mais comuns por detrás deste comportamento dizem respeito ou à tentativa de reconciliação ou ao desejo de vingança pela separação. Sendo também comum a alternância entre os dois.

Estes comportamentos poderão ser (aparentemente) inofensivos como os descritos no texto acima (mensagens, chamadas, presentes…), ou serem intimidatórios (perseguições, ameaças…).

O stalking divide-se numa vasta gama de comportamentos, variando na sua gravidade e frequência, indo desde as cartas, bilhetes, mensagens, flores ou aproximações físicas, ao outro extremo, destruir bens da vítima, entrar em sua casa na sua ausência, deixar animais mortos à sua porta/no seu carro, agressões físicas, violações e no final do espetro, homicídio. 

Seja qual for a sua forma, mesmo que aparentemente inofensivos, afetam de forma negativa a vida da vítima, impedindo o seu bem-estar e diminuindo a sua sensação de controlo e segurança. 

Tal como a violência doméstica, este tipo de condutas tem um cariz cíclico normalmente composta por 3 fases:

1. Acumulação de tensão: ocorrência de pequenos episódios geradores de conflitos, aumentando de intensidade e frequência com o passar do tempo.

2. Ataque violento: explosão da tensão acumulada, culminado num episódio de gravidade variável.

3. Apaziguamento: o agressor mostra arrependimento e promete que não se repetirá. Contudo, a curto/médio prazo o ciclo reinicia e repete-se, havendo a tendência para se agravarem a cada episódio.

Algumas notas importantes:

– O stalker, segundo investigações cientificas, é na maioria das vezes alguém conhecido da vítima- ex-parceiro íntimo, ex-companheiro, familiar, amigo ou colega.

– A experiência de ser vítima de stalking é bastante assustadora e intrusiva, podendo afetar o bem-estar psicológico da vítima, à medida que mexe com a sua privacidade, segurança, autonomia e liberdade.

– O stalking é perigoso. O risco de violência é real e comum neste tipo de casos. A frequência e severidade dos episódios tende a aumentar com o tempo, e em alguns casos culmina em situações de morte. 

– Desvalorizar a conduta do stalker não é uma estratégia efetiva. Na verdade, é raro este tipo de casos se resolverem por si só. É essencial procurar apoio e lidar proactivamente com esta situação.

– QUALQUER PESSOA pode ser vítima. Ser vítima deste tipo de abusos não é dependente da idade, género, religião, classe social… No entanto as vítimas são com mais frequência mulheres entre os 18 e 25 anos de idade.

Se está ou conhece alguém que esteja a passar por uma situação semelhante, peça ajuda, procure apoio e não desvalorize a gravidade dos comportamentos assim como das consequências. Há sempre algo a fazer para lidar com este tipo de situações.